quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Índios no Pará

Prof. Leonardo Castro


Antecedentes: a Amazônia paraense antes dos europeus



Na região que abrange a atual Amazônia (que compreende 60% do território brasileiro) antes da chegada dos europeus viviam povos ameríndios que foram denominados de “índios”, termo que tem sua origem com a conquista de Cristóvão Colombo que imaginava ter chegado às Índias, na Ásia, quando “descobriu” o continente que mais tarde veio a se chamar América.

Neste momento, a população indígena não utilizava a escrita. Sua história, mitos e costumes eram transmitidos oralmente. Por esta razão, para o estudo do passado indígena do Brasil, da Amazônia e do Pará chegou até nós através de narrativas ou relatos orais, que foram transmitidos de geração a geração. Outra forma importante, e freqüentemente utilizada, para se estudar e compreender a história dos povos ameríndios que viviam na Amazônia é o estudo dos vestígios materiais que ficaram daqueles índios do passado longínquo. Através de pesquisas destes materiais pode-se comprovar a presença de grupos humanos no passado da região, e, a partir de suas análises, podemos compreender a forma de vida dos mesmos. Os estudos e análises desses vestígios são realizados por arqueólogos. Os vestígios de materiais mais comumente analisado na região são os fragmentos de cerâmica, instrumentos em pedra, gravuras e ossos humanos descobertos.

O período anterior à chegada dos europeus é comumente chamado de pré-colombiano (isto é, antes da chegada de Colombo). Os povos indígenas que vivem ainda hoje na Amazônia são descendentes dos povos pré-colombianos. As suas línguas, por exemplo, são faladas desde antes da chegada dos europeus. Estudos recentes mostram que os índios que vivem hoje na Amazônia e no Pará estão nesta região a mais de 12.000 anos.

Os primeiros grupos humanos eram caçadores e coletores que estavam organizados em pequenos grupos de famílias, morando em cavernas (ou grutas), geralmente localizadas em serras. Eles eram predominantemente nômades, pois não moravam durante muito tempo no mesmo local. Sua alimentação dependia do que caçavam ou coletavam: animais como a paca, a cutia, o jacaré, peixes, etc. Coletavam raízes, sementes e frutos.

Em um segundo momento viveram na região grupos humanos horticultores de raízes, por volta de 4.000 anos atrás, que começaram a se instalar na beira de rios, nas chamadas “várzeas” da região amazônica. Formaram aldeias, morando principalmente em grandes casas. Esses grupos buscavam sua subsistência, água e alimentação, principalmente nos rios e igarapés. A sua alimentação era baseada na pesca (peixes, peixe-boi e tartarugas) e na caça (roedores e mamíferos terrestres). Também começaram a plantar milho e mandioca. A agricultura se realizava em áreas pequenas, por isso são chamados de horticultores.



Os Tupinambá

Antes da chegada dos portugueses ao Estado do Pará, habitavam em nossa região diversos grupos indígenas. Para a área do atual território amazônico, os indígenas estavam agrupados em três grandes troncos: tupi-guarani, aruaque e caribe.

Dentre os índios tupi-guarani na região, os mais conhecidos são os Tupinambá.

O primeiro grupo indígena que os portugueses entraram em contato ao chegar ao Pará foram os índios Tupinambá, cujo “morubixaua” (“principal” ou “cacique”) se chamava Guaimiaba, apelidado pelos portugueses de Cabelo-de-Velha.

Os Tupinambá eram extremamente belicosos, isto é, guerreiros. As guerras entre os Tupinambá tinham o objetivo de capturar prisioneiros para a execução e a antropofagia ritual. Os mortos e feridos durante o combate eram devorados no campo de batalha ou durante a retirada; os prisioneiros seguiam com seus algozes, para que as mulheres também os vissem, e pudessem ser mortos. A vingança, assim, era socializada: era necessário que todos se vingassem. A execução ritual, contudo, poderia demorar vários meses.



Os belicosos Tupinambás. Gravura de Theodore De Bry, Grandes Viagens, 1592.



Antropofagia ou canibalismo Tupinambá. A representação do ritual associa-se às imagens do purgatório e a ação demoníaca, no âmbito do imaginário religioso europeu. Gravura de Theodore De Bry, Grandes Viagens, 1592.


O objetivo da antropofagia ritual era o desejo de vingar a morte de seus parentes próximos ou os amigos em batalhas. Também há a crença entre os Tupinambás de que comendo o corpo de um guerreiro, adquiririam a sua força e habilidades nas batalhas. Tal ritual chocava profundamente os europeus que o presenciaram; tal choque fora registrado em relatos de viajantes e gravuras da época.




Texto e Contexto

Em 1639, Pedro Teixeira registrou durante sua famosa expedição pelo rio Amazonas, a belicosidade dos Tupinambá que encontrará na região:

“Havia 120 léguas deste sítio [o estreito de Óbidos] até os Tupinambá; esta nação é de gente mui feroz carniceira e nunca quis conhecer sujeição; por isso vieram fugidos do Brasil rompendo por terra e conquistando grande número de gentios até chegar ao grande rio e sítio onde hoje vivem.”
(De Pedro Teixeira, 1639. In: PAPAVERO, Nelson et. al. O Novo Éden... Belém: Museu Paraense Emilio Goeldi, 2002. 2ª ed. p. 153).


Matar publicamente um inimigo era o evento central da vida social Tupinambá. Levado ao terreiro, pintado e decorado, preso pela mussurana (corda), o cativo esperava seu carrasco que, vestindo seu manto de penas de íbis vermelha (ave pernalta), aproximam-se de sua presa, imitando uma ave de rapina. Recebia a ibirapema (espécie de porrete), das mãos de um velho matador, desferia um golpe concreto contra a nuca do cativo, rompia-lhe o crânio e lançava-o ao chão. De imediato, acudiam as velhas com cabaças para recolher o sangue que se espalhava. Nada deveria ser perdido, tudo precisava ser consumido e todos deviam fazê-lo: as mães besuntavam seus seios de sangue, para que seus bebês também pudessem provar do inimigo.




Texto e Contexto

Por volta de 1550, um alemão de nome Hans Staden foi aprisionado pelos Tupinambá do Rio de Janeiro. Em seus relatos, registrou o canibalismo tupi, mas fazendo ressaltar seu caráter ritualístico, social e guerreiro:

“Não o fazem por fome, mais por ódio e inveja, e quando combatem na guerra gritam um para o outro: para vingar a morte dos meus amigos, estou aqui; tua carne será hoje, antes que o sol entre, meu assado”.
(De Hans Staden, “Viagem ao Brasil”, 1557.).


O único que não comia era o matador, que iniciava um período de resguardo, no qual deveria se abster de uma série de alimentos e atividades. A antropofagia ritual Tupinambá era seu mais forte elemento social e cultural, que fazia da morte guerreira uma condição da vida social.

Paradoxalmente, porém, esses “carniceiros” foram antes carniça nas guerras de conquista dos colonizadores, em suas bandeiras e suas missões. Em menos de dois séculos, os numerosos Tupi foram varridos da costa brasileira – aqueles que não sucumbiram à violência, às epidemias e à fome fugiram para o interior.



Índios da Bacia Amazônica

A bacia amazônica foi palco das culturas indígenas mais sofisticadas antes da conquista. Verificou-se a presença de sociedades complexas na região amazônica. Começaram a se formar em um grande número de pessoas e a ocupar extensas áreas. A expressão cultural mais importante desses grupos indígenas da Amazônia é a cerâmica desenterrada na Ilha de Marajó na foz do Amazonas e em Santarém, no rio Tapajós, sendo as evidências de sociedades indígenas mais avançadas existentes no Brasil.




A Cultura Indígena Marajoara




As primeiras populações que habitaram a Ilha do Marajó viviam de forma simples, com organização social baseada no trabalho doméstico e familiar. Dedicavam-se à caça, à pesca, à coleta de produtos da floresta e à horticultura. Cerâmica, tecidos e outros objetos eram produzidos para a família e para eventuais trocas com outros grupos.




Os povos que viveram na Ilha do Marajó entre 1.500 anos a.C. até o século XVIII produziam cerâmica em estilos diversos. A cerâmica marajoara demonstrava grande valor como objeto artístico e veículo de comunicação social e cultural. Desenhos geométricos e figuras humanas e de animais podem ser observados na decoração.


A produção da cerâmica se concentrava no trabalho das mulheres das tribos, responsáveis por todo o processo, da escolha da argila à modelagem, da queima das peças à pintura dos objetos.

Dentre as peças cerâmicas mais famosas estão as igaçabas, urnas destinadas à guarda de ossos dos mortos em cerimônias funerárias. Há ainda as estatuetas, muitas utilizadas pelos pajés em rituais como maracás, e as tangas de cerâmica, usadas por mulheres em cerimônias e ritos de passagem.



Igaçaba Marajoara. Museu do Encontro, Forte do Presépio. Belém-PA.





Tanga de cerâmica. Museu Paraense Emílio Goeldi. Belém-PA.





A Cultura Indígena Tapajônica


O principal grupo indígena que habitava a região do rio Tapajós, no Estado do Pará, chamava-se Tapajó, habitando a região pelo menos desde o século X até o XVII. Sua principal aldeia estava situada na foz do rio Tapajós, local atual do bairro de Aldeia, na cidade de Santarém.



Os relatos históricos informam que os Tapajó estavam organizados em aldeias com 20 a 30 famílias, vivendo juntas em casas coletivas. Os grupos familiares possuíam lideres (chefes), a quem deviam obediência.


Texto e Contexto

Rio y nacion de Tapajosos.

Cuarenta leguas de esta estrechura desemboca por la banda del Sur, el grande y vistoso Rio de los Tapajosos, tomando el nombre de la nación, y provincia que sustenta en sus orillas, que es muy poblada de bárbaros, en buenas tierras, y de abundantes mantenimientos.
Son estos Tapajosos, gente de brios y que les temen muchas veces de las naciones circunvecinas, porque usan de tal ponzoña em sus flechas, que con solo a sacar sangre, quitan sin remedio la vida.
(ACUÑA, Cristóbal de. O “Nuevo descubrimiento del gran rio de lãs amazonas” do Padre Cristóbal de Acuña (1641). In: PAPAVERO, op. cit. pp. 198-199.)



A cerâmica indígena tipicamente de Santarém da cultura tapajônica apresentam regularmente a representação de figuras humanas e animais. Os objetos mais significativos da cerâmica de Santarém são os vasos de cariátides, os vasos de gargalo, estatuetas e cachimbos.




Vaso de Cariátide. Museu Paraense Emílio Goeldi. Belém-PA.



Vaso de Gargalo. Museu Paraense Emílio Goeldi. Belém-PA.



Texto e Contexto


A “Descriçam do Estado do Maranham, Para, Corupa, Rio das Amazonas” de Maurício de Heriarte (1662).


Sobre os Muiraquitãs:


Redes, Orucu, e pedras verdes que os Indios chamam Buraquites, as quais os estrangeiros do norte estimam muito; e comte se diz que estas pedras se lavram neste rio dos Tapajos de hû barro verde que se cria debaixo da agoa, e debaixo desta fazem contas redondas e compridas, vazos para beber, assentos, pássaros, rãns, e outras figuras: e tirando o feito debaixo dagoa à o ar, se endurece o tal barro de tal maneira q’ fica convertido em muy duríssima pedra verde, e he melhor contrato destes Índios, e delles muy estimado.


Sobre a Cerâmica tapajônica:


Tem estes Indios [do Trombetas] e os Tapajos finíssimo barro, de que fazem muita e boa louça de toda a sorte, que entre os Portuguezes he de estima, e a levam a outras Provincias por contrato.
(In: PAPAVERO, op. cit., pp. 255-256.)



Os vasos de cariátides apresentam curiosamente pequenas figuras modeladas que sustentam uma vasilha sobre suas cabeças. Esses vasos e os de gargalo apresentam em sua estrutura decorações com figuras humanas ou animais, como urubus, antas, macacos e pequenos batráquios. As estatuetas, em sua maioria, representam formas humanas, sobretudo femininas.





Estatueta de cerâmica representando uma figura humana. Museu Paraense Emílio Goeldi. Belém-PA.

Além de sua sofisticada cerâmica, os índios Tapajó tem como maior expressão de sua criatividade os Muiraquitãs, que são considerados os elementos de cultura material indígena mais sofisticado do Brasil.


Muiraquitã. Museu Paraense Emílio Goeldi. Belém-PA.


Os Muiraquitãs, também chamados de “Pedras das Amazonas”, eram adornos produzidos de pedras verdes (jadeíta, amazonita) em forma de batráquio, possivelmente utilizados como protetores contra doenças e mordedura de animais peçonhentos, assim como elemento para o aumento da fertilidade feminina e como figura mitológica astral. Na Amazônia, os muiraquitãs foram encontrados com maior freqüência nos vales dos rios Tapajós, Trombetas e Nhamundá.



Texto Complementar


Os viajantes se encantavam, nas diversas povoações por onde passavam às margens do Amazonas, com a complicada cerâmica feita pelos índios, uma vez que, tendo em conta aquelas pessoas por bárbaros, era surpreendente que tivesse tanta habilidade, gosto e destreza para tão elaborada arte, que era, além de tudo, comercializada.

Os vestígios arqueológicos de ocupação humana em Marajó aparecem em uma região que tem como centro o Lago Arari, este cobrindo uma área de cerca de 400 km².

Os sítios da Fase Marajoara se encontram sobre colinas ou aterros artificiais, conhecidos localmente como “tesos” (em inglês, mound)*, construídos paralelamente ao longo de rios e lagos.
Percebe-se que nos níveis inferiores há o enterramento secundário, com ossos muitas vezes pintados em vermelho, podendo estar quebrados ou apenas desarticulados, ou ainda com o morto em posição sentada, com a presença de uma tanga de cerâmica decorada.

Foram encontrados diversos objetos e vasilhas cerâmicas associadas aos enterramentos, como pratos, vasos menores, cachimbos, fusos, estatuetas, miniaturas, instrumentos musicais, “tinteiros”, além de adornos e das conhecidas pedras verdes (muiraquitãs).

É bastante curiosa a ocorrência de tangas cerâmicas associadas aos sepultamentos. Elas são encontradas freqüentemente no fundo da urna, sob os ossos; em casos de enterramentos sem urnas elas também podem aparecer associadas ao esqueleto. As tangas parecem estar associadas a esqueletos femininos, mas muitos dos esqueletos não tiveram o sexo identificado.

A Fase Marajoara apresenta um quadro em que há um grande contingente populacional, congregado em alguma forma de organização sócio-política em um extenso território, mantendo-se assim por centenas de anos. A construção de monumentais aterros, vários metros mais elevados do que o nível das cheias exigia, evidencia, por um lado, a necessidade de defesa e fortificação e por outro o fato de que milhares de trabalhadores estiveram envolvidos em sua construção. Os padrões de enterramento significando diferenciação social e a cerâmica policrômica indicando a existência de uma elite de artesãos especializados, são características que, somadas às acima descritas constituíram-se nas evidências necessárias para que se inferisse a existência de um modo de organização cacical para a fase.

(SCHAAN, Denise Pahl. Registro arqueológico e etnohistórico da Fase Marajoara. In: A linguagem iconográfica da cerâmica marajoara. pp. 70-106.)

17 comentários:

  1. Eu queria saber se nao foi dado um nome especifico p os indios marajoaras?

    Helison Queiroz, Macapá

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  2. eu queria saber tudo sobre a sociedade paraense no brasil colonial para meu trbalho que vale 10 pintos tambem ueria as fotos da sociedade paraense no brasil colonial manda para este orkut (nayara_ralyanjinhapbs@hotmail.com

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    1. The Emerald Forest este conta uma história verídica gostaria de saber se há ainda remanescentes do povo invisível na floresta amazônica?

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  3. cara me ajudou muito outros sites nao servem pra nada mas esse e showw!!!!!

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  4. Muito bom o Blog.
    Gostariamos de manter mais contato com os Parentes do Marajó. Convidamos a conhecer nossa Organização OSCIP, focada nas questões Indígenas e convidá-los a entrar em nossa Rede, para que possamos conversar mais.temos Projetos envolvendo Marajó.
    Att
    Liana Utinguassú
    Servidora/Presidente Yvy Kuraxo
    www.yvykuraxo.org.br
    http://yvykuraxo.ning.com/
    twitter:
    http://twitter.com/utinguassu

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    1. Bom dia. Moro em Curralinho-Costa Sul da Ilha de Marajó e pesquiso por conta propria o meu municipio e para isso também a Ilha de marajó. Se possivel visitem meu blog

      http://nancynunes.blogspot.com

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  5. os índios das tribos kadimen são de que local do Brasil? Amazônia?

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  6. gostaria de saber sobre os indìginos paraense

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  7. e os indios de belém? como viviam, o que vestiam, o que comiam, há sobreviventes?

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  8. eu não acho nada do que eu quero égua

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  9. Este comentário foi removido pelo autor.

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  10. Eu queria saber se os índios tupinamba também povoaram a região onde econtra-se os municipios de São João da Punda, Curuçá e Marapanim.

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    1. Certamente este documento contribui bastante em minhas aulas.

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  11. este documento me foi de grande ajuda, pois não conseguia nada nos outros sites,muito bom!

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